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OS RIOS NA CURVA DA
MORTE
Deus,
recentemente,
curioso sobre a sorte dos rios
que Ele criou para sustança da vida,
do alto do céu fez uma chamada solene:
- Rio Mucuri!
E uma voz cavernosa respondeu:
- Ausente!
Estranhou Deus o “ausente” daquela voz,
mas prosseguiu ternamente, como só ele pode:
- Rio Jequitinhonha!
E a mesma estranha voz novamente se
apresenta:
- Ausente!
Agora
empertigado, triste até,
com fala já embargada,
Deus a última chamada fez:
- São Francisco, meu “Velho Chico”!
E a voz, agora em tom de galhofa:
- ausente, Senhor, ausente!
- Mas
ausente, como? Indignou-se o Supremo Criador
e a voz completou solenemente:
- O Mucuri agora se desidrata pelo caminho
do mar que eu sapequei com Sol ardente.
E continuou a voz se deleitando:
- O Jequitinhonha, esse teve sorte mais
desalmada:
depois de se esfolar na boca das serpentes
de aço,
na extração dos caros minerais na região
Diamantina,
desceu se arrastando pelo seu leito
esquelético,
evaporou-se no Salto, virou Fumaça no Tombo
e já é Divisa de outros interesses...
Antes que Deus novamente lhe inquirisse,
a voz apressou-se em desdenhar:
- O São Francisco, seu “Velho Chico” como
dizeis,
vai doar infecto sangue ao povo do Nordeste,
por ordem do governo,
antes que ele rio morra e que o povo,
quase sempre de cabeça exangue,
pare de doar ao governo seus votos de
confiança.
Aí Deus insurgiu-se:
- Mas quem sois vós que respondeis assim tão
prontamente
ao que pergunto sobre meus rios amados?
- A morte! - respondeu a própria,
estrepitosamente,
numa gargalhada a muitas vozes,
lançando uma tenebrosa profecia:
- Morreu, mas se aos vossos olhos ainda não,
basta que doravante, como outrora,
a vossa mão de povo se ausente
ou se presencie uma demora
e é certo que vossos rios perecerão!
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