Podemos
considerar a arborização urbana como o conjunto de árvores
dentro do perímetro urbano, ou seja, indivíduos arbóreos das
calçadas, praças, parques, canteiros centrais de avenidas e
até de áreas particulares. Há um consenso com relação à sua
importância e por isso esse complexo sistema vivo merece ser
mais bem entendido e devidamente gerido.
É premente a necessidade de rever a forma como arborização
urbana tem sido planejada e gerida nas cidades. As
discussões sobre o tema ainda tem muito a avançar e ainda
não há um consenso sobre a melhor forma de compartilhar
ideias e avançar no que pode ser considerado o cerne de toda
a questão envolvendo a arborização urbana e a sua interação
com a cidade, a gestão integrada. As discussões ainda
orbitam em temas básicos, como boas práticas de manejo e
inventários de arborização urbana, não que esses temas não
sejam importantes, mas sem um planejamento urbano adequado
(a fonte das soluções, mas às vezes, também das questões) e
uma gestão eficiente do “ativo” árvore, pode ser que as
raízes profundas do lugar comum não permitam o avanço para
uma visão mais sustentável da dinâmica da árvore enquanto
equipamento bioclimático.
Podemos considerar que as questões técnicas das boas
práticas em manejo da arborização urbana estão bem
encaminhadas e praticamente consolidadas. Os especialistas
contam com um bom cabedal baseado em normas e guias
produzidos, sejam pelas universidades, sejam pelas entidades
ligadas à arborização urbana. Se as questões técnicas já
avançam em bom ritmo e estão consolidadas, onde está então a
raiz do problema? A boa técnica deve ser precedida de uma
gestão eficiente, e a gestão, por sua vez, se baseia em
resultados e benefícios que possibilitam o negócio se manter
por si só de forma sustentável.
Podemos considerar que nos municípios onde a gestão do
manejo é eficiente, todos os aspectos do processo são
monitorados e por estarem integrados, formam uma cadeia alto
sustentável que alivia os cofres públicos, pois o ativo
árvore é riquíssimo nos insumos que ele pode produzir para a
sociedade tanto como benefícios bio-climáticos e de bem
estar social como madeira, galhos e folhas, insumos ricos e
com potencial de geração de receita para os cofres públicos.
Alguns municípios ignoram a riqueza dos materiais
resultantes do processo de manejo de árvores, seja da poda,
do plantio ou da supressão ou recolhimento de árvores. Um
sistema eficiente de gestão da arborização urbana não deve
considerar que os insumos produzidos por árvores prestam
apenas para a produção de compostos orgânicos, esse é apenas
mais um subproduto, e talvez o menos nobre. Considerando que
os materiais resultantes do manejo não se restringem a
galhos e folhas, os administradores públicos deveriam
ponderar sobre qual a utilização mais adequados para as
raízes, troncos (muitas vezes de madeira nobre) e galhos
cujo diâmetro possibilitam outras utilizações e que poderiam
ser armazenados e em ultima instância leiloados com a renda
revertida para os cofres públicos em fundos para financiar a
gestão e pesquisa em arborização urbana.
A nova dinâmica do mundo não permite mais que discussões
sejam isoladas e não considerem todos os aspectos
intrínsecos, toda a cadeia de valor e que se envolvam todos
os stakeholders. Não basta discutir aspectos isolados do
manejo da arborização urbana apenas focando nas atividades
inerentes da rotina e sim pensar de forma integrada o tema
do ponto de vista de uma gestão integrada do manejo onde são
observados aspectos que sobrepõem os temas técnicos, ou
seja, uma abordagem gerencial que tenha como preocupação
tornar essa atividade de fato sustentável, além de envolver
todos os intervenientes que possam auxiliar o gestor público
agregando conhecimento, desenvolvimento, pesquisa e boas
práticas planejamento e gestão.
Sobre o tema desse texto deparei-me dia desses com texto
“Memória sobre a necessidade e utilidade do plantio de novos
bosques em Portugal” escrito em 1802 por José Bonifácio de
Andrada e Silva, texto que demonstra como algumas ideias são
atemporais ou como alguns pensadores estão à frente de seu
tempo.
Uma questão importante sobre José Bonifácio era que ele
compreendia a “natureza como um recurso básico a ser
utilizado no desenvolvimento social e material, e não algo a
ser contemplado e preservado em sua pureza original. O
desperdício e mau uso desses recursos, causado pela má
organização da produção ou pela ignorância sobre as leis
naturais o irritava profundamente.”
Incrivelmente aderente e com ponderações que devem ser
compartilhadas, José Bonifácio inicia seu brilhante texto
afirmando que, no que diz respeito ao plantio de árvores e
arvoredos, “É esta necessidade tão manifesta hoje em dia, e
é tal o esmero que há mais de meio século têm mostrado a
este respeito as nações cultas da Europa que, para nos
animarmos a imitá-las, basta pequeno patriotismo, e uma
faísca de senso comum.” Sua preocupação com a manutenção e
plantio de locais arborizados é clara, contudo ele pondera:
- há de se ter senso comum ou seja integração de pensamentos
e ideias.
Mais adiante em seu texto ele aborda os proveitos que podem
as cidades tirar das árvores; primeiramente são os naturais
que estão logicamente voltados para a melhoria do clima, do
solo, do espaço urbano em geral. Ao ver do autor as matas
foram diminuindo principalmente pela “indolência, egoísmo e
luxo desenfreado de precisões factícias”, que destruíram em
um dia a obra que a natureza levou séculos para compor. Pode
se considerar que em algumas cidades a arborização não foi
adequadamente planejada ou planejada não considerando o
convívio com os demais equipamentos, o que com o tempo pode
ter contribuído para a diminuição ou a dificuldade de se
reimplantar as matas citadas por Bonifácio Até hoje é
possível encontrar projetos paisagísticos que não consideram
a convivência entre os equipamentos urbanos aéreos e
subterrâneos e são escassos os municípios que de fato se
esforçam em envolver todos os atores na discussão e
planejamento de revitalizações e implantação de novos
espaços públicos que integrem todos os equipamentos urbanos.
No que diz respeito aos proveitos políticos o nosso escriba
observa que como utilidades políticas o plantio de novas
matas e arvores poderiam possibilitar ao Estado suprir
necessidades locais de lenha, tabuas, carvão, cinzas para
compor adubo e até sabão, nada mais ecologicamente correto e
sustentável. Além disso, ele observa a oportunidade de não
recorrer a fornecedores externos para esses insumos o
poderia permitir a economia e recursos municipais e sua
destinação em outros usos.
Para tratar a questão, ele considera a necessidade de uma
boa administração, única e enérgica, com o estabelecimento
de novos regulamentos, gerais e específicos, adequados às
circunstâncias locais que aproveitem boas ideias antigas e
que se corrijam as que não são adequadas por melhores
procurando fundamentá-las em princípios científicos e
técnicos e principalmente gerenciais. Ele sugere que a sua
execução seja responsabilidade de uma diretoria especifica
única e autônoma que dirija e fiscalize o tema primando pela
economia e responsabilidade.
A complexidade e a dinâmica das cidades não permitem que
temas importantes como o planejamento, implantação,
manutenção e gestão da arborização seja realizada de forma
dispersa e isolada dos demais sistemas que compõem o espaço
urbano e quanto disso isso estou considerando todos os
equipamentos urbanos que convivem e são necessários ao bem
estar do cidadão. Para tornar esse trabalho sustentável
faz-se necessário que o administrador público, reflita sobre
a real necessidade de criar um órgão especifico para gerir o
ativo arborização urbana, mas que seja um órgão autônomo
para gerir e que também tenha como função fazer com que essa
cadeia seja de fato sustentável. Esse órgão deveria tratar o
tema não apenas do ponto de vista das questões técnicas de
plantio, poda, supressão e recolhimento de árvores caídas,
mas sim uma abordagem com foco em resultados, na integração
da cadeia de valor e dos atores envolvidos. Que tenha a
responsabilidade de planejar e gerir toda a cadeia que a
arborização urbana é responsável desde a produção de mudas
até a utilização dos materiais com foco na geração de
receita para financiar uma parte, se não o todo das
atividades envolvidas na gestão integrada do manejo da
arborização urbana na cidade.
Para que isso seja possível os municípios deveriam
considerar parcerias publico privadas para o planejamento e
gestão da arborização urbana. Esses parceiros seriam
responsáveis por planejar e manter a arborização e teriam
que desenvolver a cadeia de valor da arborização urbana de
forma que os benefícios e insumos gerados pela atividade
pudessem ser utilizados para refinanciar o sistema além de
atuarem em conjunto com os responsáveis pelos demais
equipamentos urbanos de forma a garantir que a arborização
urbana em conflito fosse substituída ou os equipamentos
remanejados, alem do que os novos plantios não gerassem
conflitos posteriores com os demais equipamentos. |